Sobre o Casvi

Criado para dar apoio aos portadores do vírus HIV, em 1992, a organização não governamental Centro de Apoio e Solidariedade à Vida (ONG Casvi) ampliou sua missão em 2004 e passou a ser a única ONG de Direitos Humanos que atua com enfoque na sexualidade na região. 

Falar da história da ONG Casvi, de Piracicaba, é falar da história da epidemia de Aids no Brasil, assim como é falar da história do movimento LGBT no estado de São Paulo e na região de Piracicaba. É também falar de discussões sobre direitos sexuais e reprodutivos, direitos da mulher, questões sobre relações e igualdade de Gênero, Diversidade Sexual e tudo que está relacionado ás questões da Sexualidade que, segundo Michel Foucault, é um tema que nenhum sistema moderno de poder pode dispensar. Ela não é aquilo que o poder tem medo, mas aquilo que se usa para seu exercício. As proibições não são formas essenciais do poder, são apenas seus limites, as formas frustradas.

Para Anselmo Figueiredo, coordenador geral da ONG Casvi, uma ONG de Direitos Humanos que atua com este enfoque, deve olhar e acolher pessoas que tem seus direitos violados por conta da sua sexualidade.

O Casvi não atende ou desenvolve projetos apenas voltados à comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros), mas existe para garantir e produzir efeito no exercício da cidadania de pessoas que de alguma forma são discriminadas ou excluídas socialmente pela forma que escolheram para vivenciar a sua sexualidade. Desde que não seja considerada uma patologia como a pedofilia, zoofilia, necrofilia, entre outras, ou mesmo crimes como abuso sexual, estupro ou atentado violento ao pudor; desde que não desrespeite ou invada a privacidade sexual de ninguém, nossa ONG deve cuidar para que a vivência desta sexualidade, sua livre manifestação, seja garantida e respeitada. Vale lembrar que a sexualidade humana é considerada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) uma questão de Saúde Pública, a nossa saúde sexual” – explica Figueiredo.

A ONG Casvi continua atuando com as questões do vírus HIV e da Aids, assim como a prevenção as outras ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), mas justamente pelo fato da epidemia de Aids no Brasil ser concentrada e ainda atingir populações consideradas mais vulneráveis, o público alvo do Casvi tem sido pessoas que possuem orientação sexual e ou identidade de gênero diferente daquelas consideradas as únicas possibilidades de vivência da sexualidade.

A homofobia e a transfobia, principalmente, são fatores de vulnerabilidade social que interferem diretamente no risco a infecção do vírus HIV.

Se um garoto adolescente ou jovem pudesse desce cedo contar com o apoio de sua família, se não sofresse tanto bullyng na Escola e no meio social em que vive, talvez estaria menos vulnerável a essas doenças também. Primeiro ele precisa driblar a família, os amigos, depois, mais tarde, o seu local de trabalho, se esconder, se enrustir, etc. A prevenção às IST, ao HIV e a Aids acabam ficando para segundo ou terceiro planos. Acontece ainda pior com pessoas transexuais, mulheres e homens trans, e também com as travestis que, por ter uma identidade de gênero diferente, são expulsas de casa muito cedo, não terminam os estudos e acabam tendo o exercício da prostituição como única forma de sobrevivência, uma vez que todas as portas do mercado de trabalho estão fechadas para elas, mesmo os trabalhos considerados inferiores pela maioria, não abrem espaço para as pessoas trans e travestis”.

Na última década, vimos crescer o número de infecções pelo HIV entre mulheres heterossexuais casadas, entre homens heterossexuais e outras populações que não somente aquelas consideradas erroneamente na década de 80, no início da epidemia de Aids, como grupos de risco. Temos que olhar para esta epidemia concentrada, que ainda atinge muito a comunidade LGBT, assim como as profissionais do sexo, etc. Mas não podemos mais negar que existe uma feminização da epidemia, muito ainda por conta do machismo e da dificuldade da mulher em negociar o uso da camisinha com o namorado ou com o marido. Assim como não podemos negar que existe sim uma pauperização da epidemia, o que mostra que ela atinge as pessoas com menos estudos, com menos recursos, menos acesso aos serviços de saúde. O racismo, assim como discrimina e exclui a população negra, também a deixa mais vulnerável para a infecção, uma vez que contribui com a violação de seus direitos mais básicos.

A necessidade de ampliação da missão da ONG Casvi se deu muito por conta dessas percepções. Segundo o coordenador geral do Casvi, Anselmo Figueiredo, não é possível realizar um bom trabalho de prevenção às IST, HIV e Aids se não atuamos no contexto de vulnerabilidade destas populações. Atualmente estamos vendo crescer o número de infecções entre jovens, na faixa de 13 a 24 anos de idade. Os casos de Aids entre jovens cresceram 33,7% entre 2007 e 2012 em nosso estado, segundo boletim epidemiológico do Centro de Referência e Treinamento (CRT) em DST e Aids de São Paulo.

A homofobia e a transfobia, assim como o preconceito contra as lésbicas e pessoas bissexuais aumenta na medida em que aumenta no Brasil o fundamentalismo religioso. Isso deixa as pessoas mais intolerantes e cada vez com mais preconceitos com as diferenças, sejam elas de orientação sexual, gênero e identidade de gênero, assim como de raça, cor, idade, regionalidade, cultura, entre outras, isso sem citar outras questões que se somam como a exclusão das pessoas com deficiência, outras que são acometidas por questões de saúde mental, seja por dependência química ou não. Mas podemos afirmar que o que mais mata de verdade ainda é o preconceito, o estigma e a discriminação que sofrem pessoas que vivem com HIV e outras por suas diferenças que deveriam ser valorizadas e não rechaçadas”. – desabafa o coordenador do Centro de Apoio e Solidariedade à Vida.

A Aids não tem cura, mas hoje tem tratamento. E este tratamento avançou bastante, o suficiente para trazer mais qualidade de vida as pessoas vivendo com HIV ou com Aids. Assim como muito já se discutiu e se refletiu sobre as diferentes orientações sexuais e identidades de gênero. A Diversidade Sexual que vemos hoje, com pessoas inclusive se declarando não binárias, não se importando tanto com a identificação com gênero masculino ou feminino, são suficientes para enterdermos que o maior problema para a vida cotidiana das pessoas é a falta de conhecimento, de informação e de espaços que possam provocar reflexões e discussões que se de fato.

A ONG Casvi atua justamente nessa perspectiva. Com projetos como o Vivendo a Diversidade, Esquina da Noite, Sangue Bom, Quero Saber, Agrade, Nós da Prevenção, só para citar alguns desenvolvidos pela ONG de 2004 a 2016; além de atuações voluntárias em diversas ações afirmativas através do Núcleo LGBT, sendo a principal delas a organização da Parada da Diversidade e do Orgulho LGBT de Piracicaba; do seu Núcleo de Teatro, o Coletivo Estado de Cio; e da participação em diversos Conselhos e Redes que visam o Controle e a Participação Social, a ONG Casvi acredita nesta transformação, com conhecimento, diálogo, formação e informação, sensibilizando e formando cada vez mais agentes multiplicadores de que é possível vencer o preconceito e a discriminação com Educação e Cultura, acesso equitativo a Saúde, conhecendo e garantindo seus direitos, utilizando recursos legais e orientando a população a exercer a sua cidadania.